I Ching, Yijing, Zhouyi, Livro das Mutações: por que tantos nomes?
Atualizado em 24 de outubro de 2026
Todos são nomes do mesmo livro, vistos de ângulos diferentes. I Ching e Yijing são duas romanizações de 易經, "o Clássico das Mutações": a primeira no sistema mais antigo Wade–Giles, a segunda no pinyin moderno. Zhouyi (周易, "as Mutações de Zhou") é o nome do texto divinatório original que está no seu centro. Livro das Mutações (em inglês, Book of Changes) é uma tradução do título, e Yi King e I Ging são grafias antigas francesa e alemã.
A distinção útil não está entre as grafias, mas entre duas coisas a que os nomes podem se referir: o texto nu da dinastia Zhou e o clássico que cresceu em volta dele.
Zhouyi: o texto central
O Zhouyi é a camada mais antiga. Ele contém os 64 hexagramas, cada um com um nome, um Julgamento curto (卦辭) e seis textos de linha (爻辭) — mais os dois textos extras para as linhas todas yang e todas yin, sob Qian e Kun. Só isso. É conciso, cheio de presságios e imagens, e era usado para adivinhação na corte Zhou; o Zuozhuan registra funcionários consultando-o.
Por que "Zhou"? A resposta habitual é a dinastia: essas eram as Mutações dos Zhou, distintas de dois outros livros de adivinhação que a tradição atribui a dinastias anteriores, o Lianshan (連山) e o Guicang (歸藏). Os Ritos de Zhou (周禮) chamam esses livros de "três Mutações" (三易). Uma leitura minoritária, que remonta a comentadores Han como Zheng Xuan, toma 周 no sentido de "completo, abrangente". A maioria dos estudiosos modernos prefere a leitura dinástica. Veja Lianshan, Guicang e Zhouyi para saber o que se conhece dos outros dois.
Yijing: o clássico com seus comentários
易經 acrescenta a palavra jing (經), "clássico" ou "texto canônico". Ela marca o status que o livro ganhou ao ser adotado como um dos Cinco Clássicos na dinastia Han, quando o Zhouyi passou a ser lido junto com um conjunto de comentários conhecido como as Dez Asas (十翼): o Tuan, as Imagens, o Grande Comentário (Xici), o Wenyan e os demais. A tradição atribuía as Asas a Confúcio; a pesquisa moderna as vê como obra de várias mãos, dos Reinos Combatentes ao início da dinastia Han (veja Confúcio e o I Ching).
Em sentido estrito, portanto:
- Zhouyi — os 64 hexagramas com seus Julgamentos e textos de linha.
- Yijing / I Ching — o Zhouyi mais as Dez Asas, como clássico canônico.
No uso cotidiano a fronteira se apaga. Quem fala chinês diz 周易 e 易經 quase como sinônimos, e os grandes comentários usam os dois: o de Wang Bi se chama 周易注, o de Zhu Xi 周易本義, e o comentário de Cheng Yi circulou como 易傳. Quando os estudiosos querem ser precisos, dizem Zhouyi para o texto antigo e Yijing para o clássico.
O caractere 易 (yi) também é usado sozinho, como em "estudar o Yi". Comentadores Han diziam que essa única palavra tinha três sentidos — facilidade ou simplicidade, mudança e constância (易簡、變易、不易) —, uma fórmula que Zheng Xuan repetiu e que autores posteriores citam com frequência. É uma interpretação, não uma etimologia, mas capta como a tradição entendia o livro: um padrão simples, sempre mudando, regido por algo que não muda.
Romanização: I Ching, Yijing, Yi King, I Ging
Os sons são os mesmos; os sistemas de grafia é que mudam.
- I Ching — Wade–Giles, o sistema que a maioria dos livros em inglês usava antes do pinyin. I é a sílaba "yi" e Ching é "jing". Virou o título padrão no Ocidente pela tradução Wilhelm–Baynes, publicada em 1950 como The I Ching or Book of Changes; no Brasil, o livro circula como I Ching: O Livro das Mutações.
- Yijing (ou Yi Jing) — Hanyu Pinyin, a romanização oficial da República Popular da China, hoje usual nos textos acadêmicos. É também o melhor guia de pronúncia: algo como "i djin", com a segunda sílaba começando como o "dj" de "Djavan".
- Yi King — grafia mais antiga, de estilo francês, usada também por James Legge, cuja tradução inglesa de 1882 se chamou The Yî King.
- I Ging — a grafia alemã, de I Ging: Das Buch der Wandlungen (1924), de Richard Wilhelm, a tradução por trás da versão inglesa de 1950.
- Livro das Mutações — uma tradução, não uma transliteração; "Clássico das Mutações" é uma versão mais literal de 易經.
Você também vai ver I-Ching, Yi-King e outras variantes; nenhuma aponta para um livro diferente. O nosso site usa "I Ching" porque é o que a maioria dos leitores procura, e Zhouyi quando se trata especificamente do texto antigo.
Por que os nomes importam na leitura
Saber qual camada você está lendo muda o peso que você dá a ela.
- O Julgamento e os textos das linhas são o Zhouyi: a parte mais antiga e de maior autoridade de uma leitura. Quando você joga e lê uma linha mutante, está lendo essa camada.
- A Imagem (大象, "o nobre, de acordo com isto…") e o comentário Tuan são das Dez Asas: mais tardios, morais e filosóficos, e na prática indispensáveis para interpretar. Veja a Grande e a Pequena Imagem.
- As traduções misturam as camadas de jeitos diferentes. Wilhelm intercala as Asas com o texto; algumas traduções modernas imprimem só o Zhouyi. Se dois livros parecem dizer coisas diferentes sobre o mesmo hexagrama, verifique se um deles está citando um comentário.
Os manuscritos escavados acrescentam mais uma reviravolta. O texto em seda de Mawangdui, enterrado em 168 a.C., tem os mesmos hexagramas em outra ordem e com alguns nomes diferentes. Essas versões continuam sendo "as Mutações", mas mostram que o texto não nasceu fixado numa forma única.
Na prática
Quando você faz uma leitura na nossa ferramenta de I Ching, a página do hexagrama mostra primeiro o texto do Zhouyi e depois os comentários, para que você distinga as palavras mais antigas das explicações em volta delas. Um bom hábito:
- Leia o Julgamento e a linha como a resposta central — é o Zhouyi falando.
- Leia a Imagem como um conselho de conduta — é o clássico, o Yijing, falando.
- Quando for pesquisar algo, não se preocupe com a grafia. I Ching, Yijing e Livro das Mutações levam todos aos mesmos 64 hexagramas; o que importa é qual camada do texto você está citando. Para a história mais longa de como o livro viajou, veja a história e as traduções do I Ching.